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Projeto usa cultura popular no ensino da história afro-amazônica

(Matéria publicada nesta edição do Voz Docente)


Mocambo é morada

do sonho cabano /

Navega nas águas do nosso rio-mar /

Iretê, Puru, Madeira, Trombetas, Negro, Tapajós, Andirá.


Sou do São José! /

São Benedito, Verequete /

Sou do carimbó, lundu

e siriá /

Retumbão, cordão de pássaro, marambiré, marabaixo e boi-bumbá.


O toque do tambor retumba pelo corpo, ritmado pelo som no couro de veado e de quati. Mas o que reverbera mesmo, quando a batida termina, é a mensagem que fica. Marcos Moura, produtor cultural, cientista político e um dos compositores da toada que abre esta matéria, a “Quilombolas da Amazônia”, compreende esta potência.


“Muitos não têm acesso ou hábito de leitura, mas ouvindo uma toada você aprende muito”, pondera ele em entrevista ao podcast Viração, da ADUFPel. A assertiva está longe de ser uma hipérbole. Cada verso da música acima é carregado de informação e reconhecimento, que ficam incubados no povo que escuta. A letra fala da Cabanagem, a maior revolta popular do país, que entre 1835 a 1840 reuniu negros, indígenas e caboclos contra as elites do antigo Grão-Pará; incorpora os rios e seus afluentes; inclui na reverência religiosa tanto São José quando o padrinho dos negros, São Benedito, e o vodum Verequete; celebra as folguedos e manifestações da cultura popular.


Com a cultura como caminho para o ensino e desvelamento da história, surge o projeto que Marcos encabeça como diretor do Instituto Cultural Ajuri: o Escola Afroamazônica. Trata-se de um conjunto de ações para escolas de Ensino Médio voltadas para trabalhar as narrativas, vivências e lutas dos povos negros, indígenas e ribeirinhos do Baixo Amazonas.


A ideia surge da causa. Marcos, que se apresenta como um “ex-moreno” que se entende enquanto afrodescendente quando passa a integrar o movimento negro, identifica a mesma dificuldade em sua região. “Muitos não têm orgulho negro, não têm orgulho indígena ou amazônico, e isso tudo pode ser desconstruído com protagonismo”. Os desafios são muitos, e perpassam o racismo, a intolerância religiosa e a própria educação.


“A escola é um aparelho ideológico do Estado e o projeto educacional está a serviço de um estado burguês, construído por uma elite branca que se reveza no poder ao longo da história e que nega oportunidade através do racismo estrutural. Uma lógica perversa, mascarada pela ideia de ‘democracia racial’ que nega identidades”, reflete ele, envolvido há décadas com as tradições populares.


O termo “Ajuri”, nome do instituto que atua há 13 anos em Parintins/AM, vem do Tupi e significa “multidão”. É nesse ajuntamento de povos e saberes que Marcos vislumbra o projeto. “Acredito que a superação destes desafios venha através da educação, do movimento social e de nossa capacidade de exercer um direito constitucional de controle social das políticas públicas. Levamos ao poder público uma sugestão de educação libertadora, popular, afro-amazônica, irmanada com os povos indígenas e ribeirinhos”. 


Projeto

O Escola Afro-Amazônica surge como um projeto a partir do direcionamento de uma emenda parlamentar para o Instituto Manaós, parceiro do Ajuri. Nesta caminhada coletiva, incorpora-se também a parceria do Centro de Articulação de Populações Marginalizadas, o CEAP, para fundamentar as pesquisas relacionadas à diáspora negra e história do continente africano. 


A movimentação se justifica para o atendimento das Leis 1.639/2003 e 11. 645/2008, que versam respectivamente sobre a obrigatoriedade do ensino da cultura afro-brasileira e indígena na educação. Para tanto, foram produzidas uma série de ações para complementar e aproximar o currículo da realidade local e adaptadas ao período da pandemia.


No total são 14 vídeo-aulas que abordam de cultura africana à presença negra na Amazônia e desdobramentos da cultura popular. Publicou-se igualmente uma edição da revista Etnias, que reúne mais de uma dezena de pesquisadores e mestres populares, entrecruzando saberes para explorar ainda mais elementos da cultura local – que deverá ser disponibilizado em breve na forma de ebook.


Foi produzido também um CD didático com ritmos, músicas africanas, indígenas, ribeirinhas e quilombolas, bem como um show gravado com a mesma perspectiva educacional em que as músicas são alternadas por explicações sobre a história da manifestação e da comunidade que ela representa. Além da história em quadrinhos Histórias e Mitos da Amazônia, ilustrada por Levi Gama e com pesquisa e fundamentação do próprio Marcos Moura.


Por fim, há ainda cadernos pedagógicos, qual livros didáticos, que refletem sobre modos de implementar perspectivas pedagógicas afro-indígenas e sobre a história da intolerância religiosa na contemporaneidade – algo fundamental em um país em que o racismo religioso ainda é gritante. “Isso precisa ser debatido e a escola é um espaço estratégico para isso, para construir cidadãos mais preparados para as grandes questões contemporâneas”, propõe Marcos. 


Tensões

Após um considerável tempo de pré-produção, elaborando todos os materiais que didáticos necessários, o Escola Afro-Amazônica deverá ser implementado em fase piloto no dia 20 de setembro nos municípios de Borba e Parintins.


Em Borba a ação ocorre na Escola Estadual Lothar Sussman, envolvendo 375 estudantes. Já na ilha, são 200 estudantes que receberão as ações de ensino no Colégio Estadual de Tempo Integral Deputado Gláucio Gonçalves (CETI) e na Escola Estadual Dom Gino Malvestio.


Em tempos de Escola Sem Partido, e em que o conservadorismo intolerante não mais se envergonha de mostrar a própria face, como trabalhar um projeto integrador, reflexivo e crítico em um ambiente como a escola pública?  Para Marcos Moura, o objetivo é realmente tensionar. “Se nós não provocarmos, quem vai fazer isso? A educação formal? O poder público?  Não estamos fazendo nada além do que temos direito", reforça. 


Para o cientista político, mesmo para além do "perverso contexto conjuntural" representado pelo governo Bolsonaro e a ascenção da Direita conservadora, os temas já causariam dilemas. "É preciso passar por isso. E construir com muita verdade, alegria e amorosidade essa educação libertadora tão necessária para a formação dos jovens do futuro", finaliza ele.


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