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Trabalho remoto em tempos de pandemia: professoras relatam desafios e angústias

Mais de um ano já se passou desde a implementação do Ensino Remoto Emergencial (ERE) na UFPel, em 22 de junho de 2020. A medida, tomada mesmo diante de críticas da comunidade acadêmica e sem debate, foi imposta como alternativa para a manutenção das atividades acadêmicas no ensino de Graduação e de Pós-Graduação durante a pandemia de COVID-19. 


O Calendário Alternativo iria estender-se, inicialmente, por 12 semanas, entretanto, o agravamento da pandemia e a situação crítica pela qual tem atravessado o país resultaram na impossibilidade de retorno presencial e as aulas remotas foram ampliadas por um período maior. 


Nesta conjuntura, docentes tiveram de se adaptar rapidamente e viram suas jornadas de trabalho intensificarem-se, principalmente pela inexistência de amplo diálogo e planejamento que assegurasse os direitos da categoria e proporcionasse condições adequadas de trabalho remoto. E, mesmo tendo somado esforços para garantir que o ERE seja menos excludente possível, há barreiras que não permitem que isso ocorra.


O recorte de gênero é um dos que precisam ser feitos quando trata-se de pandemia e trabalho remoto. As professoras sentem cotidianamente as desigualdades, e a adaptação ao inesperado tem sido ainda mais desafiadora para elas. Tendo que incorporar outras tarefas à sua rotina, viram, literalmente, tempo e espaço se confundirem e as demandas aumentarem. 


Maternidade e trabalho remoto

Para Janaina Cardoso Brum, professora do Centro de Letras e Comunicação (CLC) da UFPel e mãe da Iná, de 1 ano e 4 meses, que nasceu durante a pandemia, a vida pessoal e laboral se entrelaçaram e o desafio está sendo conciliar isso tudo. Por um lado, ela conta que não precisou lidar com uma série de questões que são drásticas para as mães que retornam da licença maternidade, que incluem deixar seu filho ou filha sob cuidados de outra pessoa em casa ou creche, mas, por outro lado, essa indivisão sobre a vida pessoal e o trabalho faz com que tudo se misture e, inevitavelmente, uma delas seja lesada. 


“Se já fica prejudicada quando a gente está em uma uma situação que chamamos de normal, com a questão da pandemia, do isolamento, do ensino remoto, isso fica muito mais complicado. O cansaço é uma coisa absurda no final do dia. É claro, nós somos professoras universitárias e temos uma série de garantias que outras profissionais não têm. Nós temos, inclusive, uma licença maternidade que pode ser estendida por seis meses. Profissionais do setor privado, não. Mas, também, não existe nenhum outro tratamento especial para essa questão”, aponta. 


A maneira que encontrou para melhor realizar o trabalho em casa foi transformar a cozinha em seu escritório. “Como tenho uma filha pequena, eu tenho que fazer a comida dela. Então, essas coisas ficam mais práticas. Mais práticas, mas não o ideal. (...) Então, frequentemente eu dou aula com a minha filha no colo porque, estando em casa, ela quer ficar comigo e tem demandas que outras pessoas também não podem suprir. E, de outra parte, o contrário também”.  


Segundo Janaina, uma série de questões existentes e a crença de que os filhos possuem, naturalmente, mais laços com a mãe dão suporte para que as mulheres fiquem ainda mais sobrecarregadas durante a pandemia e o ensino remoto. Este, confidencia, é o seu caso. “Eu não tenho um companheiro para dividir atividades e também não tenho nenhuma ajuda do pai da minha filha, no sentido de cuidar. Então, me considero uma mãe solo. Tudo isso acaba impactando no trabalho e também na qualidade de vida”. 


“Há pouco, eu estava olhando uma reportagem que chegou à conclusão de que as mulheres são a imensa maioria das pessoas que tiveram sintomas de depressão, ansiedade e outros relacionados à pandemia. Isso não é uma tendência natural das mulheres, mas se a gente for pensar que, no conjunto de mulheres brasileiras inseridas no mercado de trabalho, nós temos aí uma quantidade grande de mães ou de mulheres que têm companheiros que não dividem tarefas e acabam assim. Simone de Beauvoir diz que, numa crise, as primeiras a perderem seus direitos são as mulheres. Isso funciona numa pandemia para além das mortes, das perdas, do estresse e do medo que a gente carrega”. 


Ao falar de um lugar de escuta e de vivência de narrativas, Vanessa Doumid Damasceno, professora e diretora do CLC, conta que ouve relatos de estudantes e colegas que vivenciam a maternidade e, agora, são obrigadas a dividir o seu espaço e tempo profissional com o pessoal. “Por meio da escuta, das pessoas que me rodeiam e que são mães, é muito difícil. É difícil conciliar esse espaço de ser mãe, de ser profissional, de ser estudante, com a atenção que o filho exige, porque o filho também não está tendo aquele contato que ele teria se não fosse a conjuntura. Eu escuto muito das estudantes a dificuldade que está sendo ser aluna nesse ensino remoto”. 


Para amenizar os impactos do ERE e dar apoio a essas mulheres, a direção do CLC, juntamente ao Diretório Acadêmico de Letras, criou um grupo no WhatsApp para oferecer ajuda e mediação às estudantes mães. A medida surgiu a partir de uma demanda por espaço para discutir questões como essa dentro da UFPel. “O que sempre acontece, infelizmente, em alguns espaços da nossa Universidade, é pensar ações sem escutar as pessoas que são mães. O que acontece é que quem pensa, às vezes, não é quem deveria, no sentido de estar naquele lugar”, ressalta Vanessa. 


De acordo com Janaina, se antes já não havia um suporte específico para mães ou cuidadoras principais de crianças, hoje isso se revela ainda mais. “Não foi uma questão pensada por ninguém na Universidade e eu imagino que em lugar nenhum”. A docente ainda complementa: “O ensino remoto é excludente de forma geral e, mais profundamente, aprofunda a desigualdade de gêneros”. 


Sobrecarga

Conforme salienta Vanessa, não faz parte da formação docente trabalhar da forma como foram impostas as mudanças. Não houve tempo para respirar, o trabalho adentrou o espaço pessoal. “Invade e continua invadindo nossa privacidade, mas de uma maneira que é assustadora, porque a gente se cobra muito, é cobrado e parece que não vai dar conta. (...) Às vezes, têm imposições que vêm e nos pegam de surpresa. O vírus já é veloz, o número de mortos já é veloz, o resto não pode ser”. 


Segundo ela, como diretora do CLC, em um primeiro momento, buscou dialogar com a gestão da Universidade para que houvesse mais cautela e calma na execução do Calendário Alternativo. O desejo não era paralisar as atividades como um todo, mas ter tempo para a sua construção de maneira que garantisse a adaptação de todos os envolvidos no processo e para que fosse o menos excludente possível. 


Por conta da falta de um planejamento adequado e de um regramento pensado para que as relações de trabalho acontecessem de uma maneira mais adequada, as docentes têm se sentido sobrecarregadas.


Ambas frisam que mesmo antes da pandemia o trabalho docente não era restrito somente às horas em sala de aula, porém, a partir do ERE, isso se intensificou. “Existe essa crença de que estar em casa é estar descansando, e os professores e as professoras sabem que isso não é verdade, mesmo antes da pandemia, porque boa carga do nosso trabalho é feita em casa, onde quer que a gente esteja, mas fora do ambiente de trabalho, para avaliar atividades, provas, enfim. Na pandemia, para mim, isso aumentou, porque tem todo o trabalho invisível que a gente faz para preparar o ambiente virtual, o e-aula, e toda uma relação que se estabelece com os estudantes”, explica Janaina.


Esse trabalho invisível expressivo inclui, ainda, o contato com os e as estudantes, que na modalidade virtual é ainda mais desafiador e sem fim. “Quando é presencial, as dúvidas acontecem ali na sala de aula, mas quando é remoto, não. A gente tem esse tripé, de ensino, pesquisa e extensão, e obviamente o que aparece é um percentual que é o menor de tudo que a gente faz”, comenta Vanessa. 


“Então, não é raro eu receber mensagens de estudantes no domingo, depois da meia-noite, no meu WhatsApp. Claro que é uma escolha do professor dar ou não o WhatsApp, mas os grupos funcionam também para o ensino remoto. É uma escolha, mas não é exatamente uma escolha porque a gente tem que achar formas também de criar um ambiente mais próximo daquele que é o presencial”, explica Janaina. 


Adaptação

Mesmo após um ano de trabalho remoto, as docentes confessam que não se sentem habituadas. “No meu ponto de vista, não tem como se sentir adaptada. Nós estamos em uma situação de exceção. Por mais que nós queiramos esquecer a quantidade de mortes, de famílias sofrendo, de pessoas doentes e com sequelas, por mais que a gente queira esquecer a leviandade com o que o nosso governo lidou com essa pandemia, e nos adaptarmos, por uma questão de saúde mental, não dá para considerar que nós estejamos adaptados”, enfatiza Janaina. 


De acordo com Vanessa, ela tanto não se sente acostumada como confessa estar cansada. “A gente está cansada dessa maneira como tem que se adaptar. A gente tá sempre adaptando e, neste momento, em como ser docente, como ser gestão de uma maneira remota. Acho que as palavras, agora, seriam que estamos cansadas e desanimadas, não só pela maneira como estamos trabalhando, mas também pela conjuntura. (...) Acredito que a gente nunca vai se adaptar a essa imposição que foi feita em função dessa pandemia, de trabalhar de uma forma diferente. Estamos cansadas em função de tudo que se soma para ser docente dessa maneira”. 



Texto publicado na sétima edição de 2021 do jornal Voz Docente. Leia aqui.


A entrevista também foi tema do episódio #91 do podcast Viração. Clique aqui para escutar.


Assessoria ADUFPel


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