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Entrevista: é imprescindível que o SUS receba reforços para enfrentar a epidemia

A ADUFPel entrevistou Anaclaudia Fassa, professora titular do Departamento de Medicina Social da UFPel e membro do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), sobre a pandemia de Coronavírus (COVID-19).


A entrevista foi ao ar no programa Viração e agora é, também, publicada na íntegra abaixo.


Qual a importância de um sistema de saúde público e universal, como o SUS, no momento de enfrentar uma pandemia como a do Coronavírus? Você acha seria diferente a reação ao Coronavírus no Brasil caso não houvesse o SUS e só sistemas privados de saúde?


Certamente os sistemas de saúde universais são mais estruturados para o enfrentamento de epidemias. O SUS organiza a atenção à saúde nos municípios brasileiros. Acho que, no caso da epidemia, o princípio da universalidade talvez seja o mais importante porque garante o direito ao acesso ao sistema de saúde sem nenhum tipo de cobrança. A cobrança, no caso de uma epidemia, é uma barreira muito grande e pode atrapalhar muito o controle do surto.


A gente também conta com uma rede de atenção à saúde bastante complexa. A vigilância, por exemplo, é crucial nesse momento. E no Brasil ela é super bem estruturada. Então, as ações que tem ser desenvolvidas durante a pandemia usufruem dessa estrutura que está montada para o monitoramento de outras doenças infecciosas. 


A gente tem um acesso ao sistema de saúde que é bastante facilitado pela capilaridade da atenção primária, que cobre todas as regiões do país, inclusive as mais remotas e desfavorecidas. A Estratégia de Saúde da Família é fundamental nesse momento, vai ser imprescindível no rastreamento dos casos, na orientação dos casos leves e encaminhamento dos casos de maior gravidade. Além disso, pelo fato das equipes conhecerem a população da área, há grande capacidade de influir e promover as medidas de isolamento.


Temos uma rede terciária bastante estruturada, os Hospitais Escola e demais hospitais com UTIs qualificadas, serviços de urgência, emergência e pronto-atendimento. Porém, a gente sabe que o SUS vem sofrendo vários retrocessos nos últimos anos, com redução de um financiamento que já se mostrava insuficiente, desestruturação de programas, redução de pessoal, e tudo mais que a gente tem visto acontecer. 


Então, é imprescindível que o SUS receba reforços para enfrentar a epidemia. A gente está vendo alguns sinais, como reforço financeiro, retorno de médicos cubanos, mas é preciso muito mais para enfrentar uma epidemia como essa. E nesse caso, a primeira questão é a proteção dos profissionais de saúde que estão atuando na linha de frente. É preciso que a gente tenha Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em quantidade suficiente para os nossos profissionais de saúde. 


A Espanha tem liderado estatizações de hospitais privados para lidar com o COVID, enquanto, no Brasil, parece haver subnotificações de casos justamente na rede privada. Você acha a estatização da saúde privada uma medida emergencial que deve ser considerada por aqui também?


Em primeiro lugar, eu gostaria de dizer que a notificação dos casos é muito importante, porque é ela que orienta a tomada de decisões em tempo real. Todas as medidas - como a restrição de circulação, cancelamento de aulas, fechamento de aulas, interrupção do serviço de transportes - são tomadas com base na evolução da epidemia em diferentes locais. 


Ou seja, elas dependem da notificação. A gente está trabalhando firme para que os profissionais da saúde, independente do setor, público ou privado, tenham acesso às informações necessárias para o enfrentamento da epidemia, e isso inclui essa questão da notificação.


Eu penso que esse não é o momento para discutir a estatização de hospitais no Brasil, porque pela Lei 13979/2020, o poder público tem o amparo legal para requisitar serviços privado. Certamente o Ministério da Saúde vai dialogar com o setor privado para viabilizar os serviços necessários e vai requisitar os serviços de acordo com as necessidades decorrentes da evolução da epidemia. 


Nós, enquanto sociedade, precisamos achatar a curva para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde. Está todo mundo falando isso. Queremos diminuir o número de casos a cada momento e dispersá-los ao longo do tempo. Eu queria reforçar esse ponto. 


Estudos estão apontando que muitos casos são assintomáticos ou têm sintomas leves. Ou seja, esses casos vão passar despercebidos, e para sermos bem sucedidos na tentativa de achatar a curva, temos que ter atitudes conscientes e solidárias. Você, aí, que está se sentindo cheio de saúde, também precisa aderir À restrição de circulação. 


O SUS vem perdendo orçamento ano após ano, em especial após o Teto de Gastos. Seria a pandemia o momento de lutar para que os cortes e o teto de gastos sejam revertidos?


Todo dia é dia de lutar contra os cortes e contra o Teto de Gastos. Recurso alocado em saúde e educação não é gasto, é investimento que se reflete na possibilidade de desenvolvimento do país e que alavanca a economia. Além disso, a gente tem que lutar, também, contra todas as políticas de austeridade, porque elas têm efeitos adversos para a saúde das populações e para a economia. A gente tem que lutar contra o retrocesso nos direitos trabalhistas e previdenciários. 


E, nessa epidemia, como no cotidiano, as pessoas mais vulneráveis vão ser as mais afetadas. Então, vamos ter mortes que seriam evitáveis. Precisamos de políticas efetivas para reduzir a enorme desigualdade social que há no Brasil.


Há algo mais sobre o COVID e a saúde pública que você gostaria de colocar?


Por fim, essa epidemia vai passar. Mas, além das perdas humanas, vamos ficar com a economia destruída. O que eu tenho para dizer é que tenho esperança. Esperança de que a gente esteja aprendendo com essa crise. 


Vamos começar a lutar imediatamente por medidas capazes de mitigar os efeitos da recessão nos mais pobres. Como, por exemplo, a implementação de um programa de renda mínima. Não 200 reais, né, pessoal? Uma política séria. Vamos sair dessa epidemia com um firme propósito de caminhar no sentido da redução da desigualdade social



Assessoria ADUFPel com imagem de ABRASCO.

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